segunda-feira, 4 de julho de 2016

O real da ficção

Por Genildo Costa.

Não ousaria, jamais, apresentar o que penso, o que acho das coisas de tudo que já foi dito em belíssimas retóricas. Nas conversas de botequins, nos momentos solenes de rigidez protocolar. Enfim, por esses corredores de nosso cotidiano onde tudo é possível por mais que tentemos evitar a insensatez dos mais sensatos, aparentemente.

Ouço de tudo. Nada, nada me comove. Apenas tento apreender e comigo fica alguns instantes vividos e, de repente, esqueço, literalmente. Acho que exercitar o passado excessivamente é tornar-se, naturalmente, surreal e repetitivo. Guardo lembranças sem que seja necessário tratar de todas as memórias. Pra cada calendário uma nova roupagem, um novo figurino. Uma fala de persuasão altiva. Fugaz. É a face mais sombria e terrível de quem se fez signatário de sua decrepitude, infelizmente. Diz-se que quando não nos reconhecemos como sujeito de nossa caminhada acabamos pedindo os passos alheios para completar o que resta do percurso. É o que ora espreito nesses fatídicos dias que virão impávidos e de profundo desrespeito aos reais valores de nossa autêntica e respeitável cultura popular nordestina.

Vereador manifesta repúdio à Escola sem Partido

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Por que, enfim, o Brasil ainda não conseguiu sair desse eterno marasmo?

Por Francisco Emílio de Oliveira.

Segundo informações advindas de fontes que não posso revelar, pois se o fizesse certamente seria tachado de louco, o nosso amado Brasil está vivendo como é do conhecimento geral, uma espécie de expiação cármica. E essa mesma fonte diz ainda que não devemos nos exasperar e nem tampouco nos desesperar achando que não há mais solução para o nosso país pelo simples fato da situação, em todos os sentidos que se possa imaginar, haver chegado ao fundo do poço.

Ao invés de ficarmos tristes e deprimidos com o que está ocorrendo, essa misteriosa fonte diz que deveríamos era agradecer, nos alegrar e nos sentir felizes, visto ser o Brasil, o primeiro país escolhido numa sequência em que todos os outros igualmente também irão passar por dificuldades parecidas.

domingo, 5 de junho de 2016

"House of Soraya"

Por Gregório Duvivier.

 "A política nacional tá melhor que 'House of Cards'!" Quem diz isso nunca viu "House of Cards". Acho uma falta de respeito com "House of Cards".

Se fosse uma série, teria reviravoltas. Mas não. Desde o primeiro episódio que tá todo o mundo dizendo que é golpe. Tudo indica que é golpe. Eis que, na quinta temporada, os roteiristas escrevem uma grande revelação: ouvimos o ministro do Planejamento planejando (perceberam a sacada do roteirista?) um golpe. "Óóóóóóó", grita a plateia, meu deus! "Que surpresa! Por essa não esperávamos!"

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Primeiro passo

Por Genildo Costa.*

Como todos os dias, vejo cenas repetidas de um mesmo teatro que não suporto mais encará-lo de frente. Por mais que seja real, devo dizer de meu ceticismo,ou melhor, de minhas dúvidas que atormentam as noites de minha solidão. Não costumo até então guardar comigo confetes para alimentar a vaidade de quem quer que seja. Deve ser por conta dessa minha ausência nos espaços de glamour que hoje pago um preço altíssimo em continuar defendendo intransigentemente a liberdade de manifestação da palavra, mesmo sabendo que aos loucos pelo menos persiste o direito de continuar sonhando. Quando não mais prestar para sonhar sonhos possíveis, remeterei a mim mesmo uma carta suicida, e farei de meu silêncio o instrumento para denunciar os meus devaneios e utopias vãs.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A qual, era do Brasil.

Por Jessier Quirino.*

Cortam coqueiros que dão coco
Alagam fontes murmurantes
Poluem rios e o mar
Fecham as cortinas do passado
Jogam a mãe preta do cerrado
Nunca se cansam de roubar
Ah! Era um Brasil lindo e trigueiro
Riqueza, tanta riqueza...
Será que dá pra acabar?
No caminho que caminha,
Escreveria Caminha:
Em se roubando tudo, dá.

Jessier Quirino* é um poeta paraibano.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Coração de firma bate forte no Natal.

 Por Rubem Braga*.

"Comprem, comprem!" A publicidade faz sua grande farra de fim de ano, e nós é que devemos pagá-la. Uma garrafa de uísque deixa de ser uma garrafa de uísque, é um mimo envolvido em cores mil, cercado de frases festivas e exclamações: assim todas as coisas perdem seu ar honesto, afetam uma alegria sem graça.

E a burguesia faz surrealismo sem o saber. Que existe de mais louco do que receber votos de Feliz Natal e Próspero Ano Bom não de uma pessoa, mas de uma firma comercial, um banco, um ser jurídico? Não é o homem de empresa que nos saúda alegremente, de cristão para cristão; é a própria  sociedade anônima que se faz afetuosa, que exprime os bons sentimentos que empolgam seu espírito de estatuto ou sua alma de balancete. É, digamos, a Coperval S.A., uma senhora visivelmente lírica, amante de legendas douradas sobre fundo azul, com uma letrinha sentimentalmente inclinada para a direita, flores e anjos, sinos a badalar. O coração da firma está batendo de afeto.

Dezembro, 1988.

* Rubem Braga foi um dos maiores cronistas brasileiros. O texto da postagem é um excerto da crônica Águas de Leste e Papai Noel contida no livro Um cartão de Paris (1997).